O primeiro pacote econômico a gente nunca esquece. O Plano Cruzado, decretado há 11 anos no governo José Sarney, não foi o pioneiro na História do país, mas mexeu com os brasileiros, surpreendentemente, de forma positiva. O cruzeiro, velho de guerra, deu lugar ao cruzado, moeda símbolo dos novos tempos. Preços, salários e câmbio foram congelados. Fez-se o sonho – mais tarde transformado em pesadelo. Tudo acabou quatro meses depois porque as medidas não encontraram apoio estrutural, mas serviram para eleger 22 governadores do PMDB, então o partido do governo. Em novembro, veio o Cruzado II, uma tentativa de juntar os cacos do antecessor. Ainda com Sarney, os brasileiros enfrentaram os planos Bresser e Verão. Estes, no entanto não trouxeram alterações tão profundas como os Cruzados. Apesar dos esforços e sobressaltos, o presidente se despediu do poder com uma inflação de 84% ao mês. Em 1990,  Fernando Collor tomou posse afirmando que tinha apenas uma bala para matar o tigre da inflação. Acabou dando dois tiros, os planos Collor I e II, confiscou o dinheiro das cadernetas de poupança e outras aplicações financeiras, mas não conseguiu debelar a inflação. A exemplo de Collor, Fernando Henrique adotou também dois pacotes. No primeiro, em 1994, ainda como ministro da Fazenda, criou o real. Repetindo o sucesso do cruzado de 1986, a nova moeda melhorou a vida dos brasileiros – mas, de novo, o quadro estrutural precisava de reformas ou, pelo menos, ajustes. É o que tenta agora Fernando Henrique com sua segunda intervenção de emergência na economia.

Os planos anteriores

Plano Cruzado

Decretado em 28 de fevereiro de 1986, o Plano Cruzado, do ministro da Fazenda, Dílson Funaro, pôs uma camisa-de-força em toda a economia. Preços, salários e câmbio tornaram-se “intocáveis”. A população deu seu apoio irrestrito e transformou a Sunab, hoje extinta, em uma trincheira contra os sabotadores da estabilização, aqueles que insistiam em remarcar preços cobrar ágio na venda de automóveis e esconder a carne, por exemplo. A Polícia Federal foi ao pasto, literalmente, atrás do boi. Por fim, deu bode. O quadro que inibiu a inflação, antes na faixa dos 20% ao mês, não durou muito tempo. Reclamavam-se as reformas na estrutura econômica, que, também naquela época, não vieram. Meses depois, os preços e o câmbio começaram a romper a camisa-de-força, deixando defasados os salários. Em novembro, veio o Cruzado II, que descongelou a taxa de câmbio e tentou resgatar a empolgação do começo do ano, quando cidadão, na qualidade de Fiscal do Sarney, tomavam a iniciativa de fechar sumercados “em nome do presidente da República”.

Bresser e Verão

Nascido em 12 de junho de 1987, o plano que levou o nome do então ministro da Fazenda Luís Carlos Bresser Pereira também congelou preços e salários, mas por apenas 90 dias. Depois desse período, a regra salarial determinava reajustes mensais com base na média da inflação do trimestre anterior, medida por um novo indexador, a URP, Unidade de Referência de Preços. O objetivo era controlar e partir para a reforma fiscal – o que se está tentando novamente. A inflação voltou a subir, Bresser caiu e logo viria mais um plano. Em 15 de janeiro de 1989, já com Maílson da Nóbrega na Fazenda, o país conheceu o Plano Verão – o ministro, prudentemente evitou emprestar seu nome à nova reengenharia econômica, o que inspirou mais suspeitas do que confiança. O pacote “feijão-com-arroz”, como Maílson o classificou, foi adotado com a prioridade de impedir uma hiperinflação. No fim daquele plano, o índice mensal estava acima de 84%.

Collor I e II

Saiu pela culatra o único tipro que o presidente Fernando Collor dizia ter para matar o tigre da inflação. Em 16 de março de 1990, seu plano congeloupreços, trocou o nome da moeda (de cruzado para cruzeiro, novamente) e confiscou depósitos e investimentos, incluindo a poupança, em cruzados. Ficou gravada para a oisteridade a imagem da ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mellom, em rede nacional de televisão, tentando explicar que o bloqueio das cadernetas não era “confisco”, mas somente “bloqueio”. A inflação desabou de 45% ao mês para 7,87% em abril. Quatro meses depois, porém, o tigre ressucitou. O índice já atravessava a faixa dos 12%. A inflação retomava a escaladados velhos tempos, quando a equipe econômica teve uma nova idéia: mais um plano. Em fevereiro de 1991, o Collor II repetiu com sucesso o fracasso do Collor I.

Real

Considerado o mais engenhoso de todos os planos de estabilização, o Real foi recebido com ceticismo em 1º de julho de 1994, quando Fernando Henrique Cardoso era ministro da Fazenda. Baseado numa complexa conversão, acorada num índice até então pouco popular, a URV,  Unidade de Referência de Valor, o plano parecia mais um “cabo eleitoral”. Logo, porém, passaria a entusiasmar a maior parte da sociedade, segundo o governo, “aquela mais carente, beneficiada por uma redistribuição de renda jamais vista”. Verdade ou não, com câmbio de um por um e lastro nas reservas internacionais (que ultrapassaram os R$ 60 bilhões), o Brasil real produziu mais e consumiu mais. A economia se abriu às importações e os preços se estabilizaram sem amarras. O governo deixou as reformas para depois e foi atropelado pela globalização.