As raízes do processo de escravidão dos negros africanos, encontram-se no processo de acumulação primitiva de capitais, característica da política mercantilista. A escravidão negra era duplamente lucrativa: ao nível da circulação da “mercadoria humana”, permitindo a acumulação por parte da burguesia traficante, e ao nível de produção. Ao ser vendido como mercadoria, o africano trazia lucros enormes para o comerciante, ao contrário do indígena, cuja escravização seria um negócio local, interno. Ao trabalhar, o escravo sustentava a classe dominante colonial e, em parte, as classes dominantes metropolitanas interessadas no pacto colonial. A exploração da força de trabalho do escravo permitia o assalariamento de trabalhadores especializados (como os mestres-de-açúcar, os purgadores, os caixeiros, no caso da lavoura canavieira) e fornecia recursos para a renovação dos meios de trabalho e para a continuidade do tráfico.

Não causa surpresa o fato da Igreja Católica, já no século XV, ter lançado suas bênçãos sobre a ignominiosa atividade econômica que foi o tráfico negreiro; seja pela lucratividade oferecida pelo comércio de africanos, seja pela alternativa que a escravidão negra oferecia ao apresamento dos índios, futuros “bons cristãos”, disponíveis para exploração nas fazendas das missões.

Embora não se tenha certeza quanto a data em que vieram para o Brasil os primeiros escravos africanos, sabe-se que a partir de 1550 teve início o comércio regular de escravos entre a África e o Brasil. Sua introdução foi lenta em alguns lugares, pois seu custo era alto se comparado ao do indígena que quase nada custava. Por isso, em certas regiões mais pobres, e mesmo nas capitanias do Norte, a mão-de-obra indígena continuou participando em escala considerável da exploração colonial, especialmente até o fim do século XVI.

Ná África, os negros eram resgatados de forma violenta: os portugueses atacavam as tribos ou provocavam guerra entre duas tribos. Aos poucos, os próprios africanos passaram a capturar seus conterrâneos para poder trocá-los com os traficantes: chefes locais chamados sobas, vendiam aos comerciantes portugueses os escravos em troca de fumo, tecidos, cachaça, armas jóias, vidros, etc.

Existiram três formas de tráfico de escravos no Império português: o tráfico particular, o tráfico das companhias em meio a outras atividades comerciais e o tráfico submetido ao assento – direito de explorar o tráfico negreiro, cedido pelo rei a companhias particulares mediante pagamento significativo.

A maioria dos negros africanos trazidos para o Brasil pertencia aos seguintes grupos étnicos: bantos, capturados no Congo, Angola e Moçambique; os sudaneses, originários da Nigéria, Daomé e Costa do Marfim; e, em menor número, os maleses, sudaneses convertidos ao islamismo, entre os quais se destacavam os haussás, grupo sempre lembrado por sua constante insubordinação e continuadas revoltas.

Após o resgate eram trazidos ao Brasil em navios negreiros (tumbeiros) e, dos portos, levados aos mercados de escravos, onde eram vendidos. Quando comprados, passavam a ter um dono, para quem trabalhavam de sol a sol (caso do negro das plantações).

Moravam em senzalas, tipo de barracão que ficava longe da casa-grande, para que os senhores não sentissem seu cheiro nem ouvissem suas tristes canções. Sua alimentação consistia em farinha de mandioca, aipim, feijão e banana. Em determinados engenhos, o senhor permitia que o escravo, trabalhando um dia de semana, cultivasse sua própria roça, desobrigando-se, assim, de alimentá-lo. Os castigos corporais eram comuns, permitidos pela lei e pela Igreja. Segundo um regimento de 1633, o castigo era realizado por etapas: depois de bem açoitadado, o senhor mandaria picar o escravo com navalha ou faca que cortasse bem e dar-lhe com sal, sumo de limão e urina, e o meteria alguns dias na corrente. Sendo fêmea, seria açoitada dentro de casa, com o mesmo tipo de açoite. Outros castigos também eram utilizados, como o retalhamento dos fundilhos com faca e cauterização das fendas com cera quente; o chicote de tripas de couro duro; a palmatória, uma argola de madeira parecida com uma mão para golpear as mãos dos escravos; e o pelourinho, onde se aplicava o açoite: o escravo ficava com as mãos presas ao alto e recebia lambadas de acordo com a infração cometida.

O mundo dos escravos não era homogêneo. Distinguia-se, em primeiro lugar, entre o cativo recém chegado da África, o “boçal”, e o “ladino” – africano já aculturado e entendendo o português. Os africanos eram, como um todo, opostos aos “crioulos” nascidos no Brasil. Havia ainda distinções reconhecidas entre “nações” africanas de origem diferentemente valorizadas.

Tradição e Resistência: o legado do oprimido

A despeito da ação destrutiva da escravidão, os africanos trazidos para a América Portuguesa e, por efeito da Independência, para o Brasil, resistiram de formas diferenciadas e contundentes à humilhação do cativeiro. O suicídio e o banzo – também conhecido como saudade da África, aliaram-se a formas mais sutis de resistência como a música, dança, língua falada e escrita, culinária e o sincretismo religioso; sendo este último marcado pela associação de entidades do catolicismo predominante, aos orixás cultuados pelos africanos.

A via da violência também foi utilizada pelos negros escravizados em episódios que iam do assassinato de elementos brancos, até a organização de comunidades rebeldes como foram os quilombos. A mais importante dessas comunidades foi o Quilombo dos Palmares. Organizado no início do século XVII, na região da Serra da Barriga, em Alagoas, o quilombo tornou-se autossuficiente produzindo milho, mandioca, banana, cana-de-açúcar e que, durante um certo período, chegou a comercializar seus excedentes com as regiões vizinhas.

Palmares chegou a abrigar mais de 20.000 negros fugidos dos engenhos, dispersos durante a invasão holandesa. O quilombo era dividido em aldeias menores chamadas mocambos. A destruição da comunidade ocorreu em 1695 pela força dos canhões trazidos pelo bandeirante Domingos Jorge Velho.